quarta-feira, 21 de julho de 2010

Teatro

REVISTA EDUCAÇÃO - EDIÇÃO 159
Freire no palco
As agruras e desafios da vida de professor estão no centro das preocupações de Sobre sonhos e esperança, peça baseada nas reflexões do mais conhecido educador brasileiro
Lucie Ferreira


Depois de um dia cansativo, Maria Amélia Azevedo Cunha, conhecida pelos alunos como Tia Lia, espera encontrar a paz durante o sono. Porém, um pesadelo com dois monstros cobrando as planilhas de notas mostra que a desilusão e o estresse da professora vão além da sala de aula. Mas eis que um sábio senhor de barbas brancas irrompe na cena e conversa com a professora sobre os medos e as dificuldades enfrentados na vida. Esse homem se identifica como Paulo Freire.

Nascido em 1921, no Recife, o educador Paulo Freire é a inspiração da peça Sobre sonhos e esperança, da Companhia Arte Tangível. As ideias do pensador guiam a protagonista, uma professora do ensino fundamental, em seus momentos de reflexão e mudança. "A educação pode mudar as pessoas; as pessoas podem mudar o mundo", diz o Paulo Freire interpretado por Alexandre Saul. Freire é, sem dúvida, o educador brasileiro mais conhecido no Brasil e no mundo. O fato de haver uma peça que dialoga diretamente com sua obra é mais um indício da importância social crescente da educação, manifesta em especial pelo paradoxo do valor que se atribui ao conhecimento, contrastado com a pouca valorização do professor. A peça já foi assistida por mais de seis mil pessoas em apresentações em teatros e escolas.

Diretora e coautora da peça, escrita em parceria com Thomas Holesgrove, Luciana Saul conheceu Freire e seus pensamentos por intermédio da mãe, a educadora Ana Maria Saul, que trabalhou com ele durante 17 anos na PUC-SP. "Houve um momento em que aliar a prática de nosso grupo no trabalho na periferia ao referencial progressista, democrático e crítico-transformador da obra de Freire se tornou urgente. Assim, escolhemos alguns temas tratados pelo educador para construir o roteiro e a encenação", explica Luciana.

Para escrever Sobre sonhos e esperança, os autores selecionaram trechos e temas de obras de Paulo Freire, além de consultar professores para falar sobre questões inquietantes a respeito da profissão. Por exemplo, as planilhas de notas que aparecem no pesadelo da protagonista e o desânimo frente ao desafio de motivar o aluno foram sugeridos pelos docentes consultados. Um dos grandes desafios foi o cuidado para que os conceitos mencionados fossem apresentados de forma simples, mas não simplista.

Segundo Luciana, educadores que conhecem a obra de Paulo Freire podem assistir ao espetáculo e identificar, por exemplo, uma possibilidade de transformação do trabalho do professor por meio da leitura da realidade. No entanto, há aqueles que não leram o pensador, mas trabalham, ainda que intuitivamente, com sua abordagem da educação. De acordo com a coautora, após assistir à peça esses educadores sentem a necessidade de buscar na obra de Freire as bases para sua prática e outros caminhos possíveis de transformação. "Buscamos apresentar temas importantes que inspirem os espectadores a uma reflexão e transformação de suas práticas, por meio de uma linguagem prazerosa e divertida", comenta.

Entre o pesadelo e a realidade
Na peça, a protagonista acredita que a solução para a pressão sofrida é tirar a licença médica e desaparecer em um transatlântico, mas Paulo Freire intervém e apresenta propostas que irão mudar a maneira como realiza seu trabalho: ensinar com seriedade e alegria, substituindo o arcaico método de memorização mecânica pelo debate e estimulando a participação e o questionamento dos alunos, representados por Melissa (Fernanda Quatorze Voltas) e Jerson (Thomas Holesgrove). A primeira pertence à classe média e sonha em se tornar piloto de avião, desejo reprimido pelo pai, que acredita que a mulher deve apenas casar e ter filhos - se estuda é para ter o mínimo de conhecimento e não parecer ignorante diante do marido. Já Jerson é de classe baixa e trabalha como malabarista nos faróis. Impaciente, sua preocupação na sala de aula se resume ao horário do recreio para poder comer. "Escolhemos duas situações extremas de alunos e famílias de alunos para poder abrir o debate sobre diversos assuntos imbricados nessas situações", conta a diretora, que também interpreta Maria Amélia, ao justificar a construção de personagens um tanto monocórdias.

Além de abordar a relação professor-aluno, caracterizada como uma relação de poder, a peça retrata a reunião de pais e mestres na qual a atitude de Maria Amélia é criticar Jerson sem propor soluções para melhorar seu aprendizado. Por outro lado, o pai de Melissa critica a escola porque acha que a filha aprende muito devagar e acredita que o aprendizado se resume a memorizar o conteúdo cobrado no vestibular. Ou seja, trabalha com visões "clichê" que as partes têm entre si para colocá-las em xeque.

No momento em que a professora reflete sobre a função da escola e do seu trabalho, o personagem de Paulo Freire propõe maior diálogo entre os pais e a instituição para propiciar mudanças e para que se cultive o gosto do aluno pelo aprendizado. Entretanto, como enfatiza a peça, as mudanças não ocorrem de maneira repentina: requerem uma reinvenção da prática - a aliança entre pais, professores, alunos e escola, e a rejeição ao individualismo.

Com base no pensamento de Paulo Freire, a peça defende a necessidade de descobrir o que os alunos sabem, do que gostam e quais são seus sonhos e anseios; ouvir o que pensam e incentivá-los a questionar e a raciocinar. Quando a escola abre espaço para o aluno se expressar, passa a ter maior interesse em aprender e em entender o mundo e a comunidade onde vive. "O que acontece na aula deve ter relação com o que acontece lá fora", diz a professora ao identificar, com a ajuda dos alunos, caminhos eficientes para facilitar o aprendizado.

O espetáculo em debate
No dia em que a reportagem assistiu à peça, ela havia sido apresentada como parte do evento ""II Seminário Web Currículo PUC-SP". Após o término, um debate entre o público (formado por professores, educadores e pedagogos) e os componentes da Arte Tangível trouxe observações relacionadas aos temas abordados pelo espetáculo e os desafios diários enfrentados pelos profissionais de ensino, que afirmaram ter se identificado com a protagonista, do pesadelo à persistência em mudar a forma como o ensino é realizado no país.

A professora de pedagogia da Universidade Federal do Tocantins (UFT) Valdirene Jesus nota que a opressão sofrida pela protagonista é semelhante à que ocorre na região onde trabalha. "É mais cômodo aceitar o sistema do que lutar por algo melhor", destaca. Ela diz que a escola e a educação acabam se tornando instrumentos políticos, pois os funcionários são escolhidos por indicação. "Para os professores, não adianta inovação, porque o momento político pode tirar o cargo", revela. "Então, é preciso acreditar e mudar - e não muda do dia para a noite", completa. Quem também se identificou bastante com o tema apresentado em Sobre sonhos e esperança foi o professor de ciências Elan Barreto, que leciona em uma escola pública de Angra dos Reis. "A gente se vê na peça e ela nos faz voltar à obra de Paulo Freire", comenta.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

IDEB

Reportagem publicada no jornal Estado de São Paulo do dia 07/07 revela que o investimento feito pelo MEC nas escolas com pior resultado no IDEB em 2005 não contribuiu de forma significativa para o aumento dos índices nessas escolas, já que pelo menos metade delas não conseguiu sequer alcançar a meta estipulada.
No grande ABC, a maioria conseguiu atingir a meta e esta próximo aos patamares propostos pelo MEC de 6,0. Algumas escolas já até superaram esta meta.
Mas , para que todas cheguem lá, é preciso que haja políticas públicas mais efetivas. Apenas o envio de dinheiro não é suficiente para uma mudança significativa. É preciso que hajam ações como a mudança na formação dos professores, que seja realizada de forma a atender as necessidades pontuais de cada escola e, principalmente, as necessidades dos alunos.
Além disso, é preciso também investir na valorização do professor e no aumento real de salários de modo que este seja um motivador para a busca da profissão, trazendo assim os melhores profissionais para a área.
Pesquisa feita em escola estadual de Ensino Médio de São Paulo no mês passado, revela que, dos 130 alunos que participaram, apenas 24 tem algum interesse nas licenciaturas, sendo que destes, 12 são para Educação Física, ou seja, se não houver uma mudança radical, não haverá interesse das próximas gerações em buscar as carreiras do Magistério.
Este ano, teremos eleições presidenciais e estaduais. Vamos ficara de olho nas propostas dos candidatos para ver que, de fato, está preocupado com isso e tem propostas concretas para reverter este quadro, pois ao contrário, a situação só tende a piorar.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Sala de Aula Estruturada

A Fundação Lemann promoveu na última semana um seminário com o tema A Sala de Aula Estruturada.

Este encontro teve como objetivo apresentar ao público presente a pesquisa realizada por Paula Louzano, com apoio da Fundação Lemann sobre o uso do material estruturado em sala de aula e os impactos que causam na aprendizagem dos alunos medidos pelos resultados das avaliações externas.

Este é um assunto bastante polêmico pois, para muitos professores e estudiosos, fere a autonomia do professor. Porém, em seu livro A vantagem Acadêmica de Cuba, o pesquisador americano Martin Carnoy questiona essa autonomia em favor do direito do aluno de aprender.

Para participar dessa discussão acesse o portal Portal Líderes em Gestão Escolar e veja a apresentação das palestrantes, o vídeo com as palestras na íntegra, as fotos do evento e as reportagens publicadas sobre o tema para que possa ter mais informações sobre a pesquisa.
Acesse o link http://www.lge.org.br/conteudoPortugues/modelos/conteudo_noticia.aspx?codConteudo=290&codTipoConteudo=noticia

No blog Ideias em Educação (www.lge.org.br/ideiasemeducacao), você também encontra mais material sobre o tema. A educadora Guiomar Namo de Mello fala sobre o estudo em entrevista exclusiva e o post “Por que a tromba?” comenta a repercussão do estudo entre alguns grupos da academia.

Se quiser, deixe depois seus comentários em nossa página para alimentarmos essa discussão.

terça-feira, 6 de julho de 2010

IDEB 2009

O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é a "nota" do ensino básico no país. Numa escala que vai de 0 a 10, o MEC (Ministério da Educação) fixou a média 6, como objetivo para o país a ser alcançado até 2021.
O indicador é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar, obtidos no Censo Escolar (ou seja, com informações enviadas pelas escolas e redes), e médias de desempenho nas avaliações do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o Saeb – para os Estados e o Distrito Federal, e a Prova Brasil – para os municípios.
Criado em 2007, o Ideb serve tanto como dignóstico da qualidade do ensino brasileiro, como baliza para as políticas de distribuição de recursos (financeiros, tecnológicos e pedagógicos) do MEC. Se uma rede municipal, por exemplo, obtiver uma nota muito ruim, ela terá prioridade de recursos.
O índice é divulgado a cada dois anos.
O objetivo do MEC é que o Brasil atinja nota 6 nas avaliações de 2021 - as notas serão divulgadas em 2022, ano do bicentenário da Independência do Brasil.
Chegou-se a esse número com base na média das notas de proficiência dos países desenvolvidos da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), uma organização internacional e intergovernamental que agrupa os países mais industrializados da economia do mercado.

No estado de São Paulo este ano, a nota para as séries finais do EF foi 4,5 - um pouco acima da meta nacional de 3,7. Já na cidade de São Paulo a nota foi 4, ficando abaixo da média do estado.
Santo André, cidade localizada na grande São Paulo, a média foi 4,4 aproximando-se da média do Estado.

Nas séries iniciais, a cidade de Santo André deu mais um passo em direção à meta nacional de 6,0 chegando à 5,1, graças ao empenho da última gestão na busca pela qualidade do trabalho com foco na formação de professores alfabetizadores e na formação dos coordenadores pedagógicos para que estes fossem agentes de formação dentro das escolas.

Merece destaque a EMEIEF Carolina Maria de Jesus, vencedora do Prêmio Escola da Fundação Victor Civita em 2007 e que, em 2005, tinha um dos índices mais baixos do município e agora, ultrapassou a média da cidade chegando a 5,2.

Para ver o IDEB da sua escola, acesse o site http://sistemasideb.inep.gov.br/resultado/

Quer saber mais? Acesse:
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=180&Itemid=336

domingo, 27 de junho de 2010

Construindo caminhos para o sucesso escolar


Unesco lança coletânea de textos sobre Educação

Dez especialistas que participaram do seminário "Construindo caminhos para o sucesso escolar" publicam suas contribuições para o debate sobre a Educação no Brasil e no mundo

“A escola realiza concretamente o direito humano de educar-se, instruir-se, formar-se para participar de uma civilização”. A frase acima é uma das idéias de fundo que permeia a coletânea de textos lançada este mês pela Unesco, com as principais conclusões do Seminário Internacional “Construindo caminhos para o sucesso escolar”, realizado em 2007 em Brasília.

A coletânea reúne textos dos dez especialistas que participaram do seminário e traz idéias e conclusões bastante interessantes sobre a Educação no Brasil e no mundo. Nas palavras de Vincent Defourny, representante da Unesco no Brasil, os textos “representam uma contribuição para se compreender fatores que precisam ser considerados ao se traçar políticas e ao se implementar ações que visem à melhoria da escola e ao encaminhamento bem-sucedido de crianças e jovens na direção da conquista de aprendizagens essenciais à vida cidadã”.

Abordando temas como avaliação, aprendizado, sucesso escolar, e ações articuladas pela melhoria da Educação, a coletânea traz textos assinados pelos especialistas abaixo:

1 – “Relatório do seminário internacional Construindo caminhos para o sucesso escolar”, Bernardete Angelina Gatti

2. “Avaliação em larga escala e fatores associados ao desempenho escolar”, Creso Franco

3. “Caminhos para o sucesso escolar na escola pública”, José Francisco Soares

4. “Repensando a escola: um estudo sobre os desafios de aprender, ler e escrever”, Vera Esther Ireland (Coord.)

5. “Identificação de boas práticas nas redes municipais de ensino que influenciam o desempenho dos alunos na Prova Brasil”, Suhas D. Parandekar

6. “Aprova Brasil. Observando e ouvindo a escola, na perspectiva do direito de aprender”, Maria de Salete Silva

7. “Quality issues in primary and second level education: the Ireland experience”, Eamon Stack

8. “Compartilhando experiências, melhorando a aprendizagem”, Maria Auxiliadora Seabra Rezende

9. “Avaliação: uma proposta educacional”, Maria Nilene Badeca da Costa

10. “Alianzas estratégicas para el desarrollo educativo local: el caso de la red de
escuelas de campana”, Laura Fumagalli

Nas palavras do representante da Unesco no Brasil, “espera-se que esta coletânea possa estimular gestores e professores numa caminhada consistente na direção do sucesso escolar das crianças e jovens brasileiros”.

O link abaixo possibilita o download do material.


http://www.smec.salvador.ba.gov.br/site/documentos/espaco-virtual/espaco-escola/apoio/Construindo-caminhos-para-o-sucesso-escolar.pdf

sexta-feira, 25 de junho de 2010


Prêmio Victor Civita: é hora de preparar o projeto

Trabalhos simples, mas bem desenvolvidos e articulados com a aprendizagem, são o foco da premiação.

Muita gente acredita que, para inscrever sua escola no Prêmio Victor Civita - Gestor Nota 10, é preciso ter um projeto complexo, sofisticado e completamente inédito. Nada disso. O que os selecionadores da maior e mais importante premiação de Educação do Brasil esperam é que o trabalho tenha tido impactos positivos na aprendizagem. "O projeto pode ser simples, mas precisa ter sido planejado pela equipe gestora com o objetivo de melhorar o desempenho dos alunos", afirma Regina Scarpa, coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita e chefe da equipe de seleção do prêmio.

"Não há restrição quanto ao tema do projeto, porém é preciso que os conteúdos estejam claros, assim como os objetivos, as ações desenvolvidas e a articulação com a sala de aula de forma a promover o aprendizado dos alunos", explica Ana Inoue, selecionadora desta categoria. Em 2009, dos 652 projetos inscritos, 74 foram desclassificados por não obedecerem ao regulamento. O registro feito na inscrição deve trazer bem explicados a justificativa do projeto, os objetivos, os conteúdos curriculares, a metodologia e a avaliação.

A boa notícia deste ano é que o valor do prêmio aumentou: agora, o vencedor vai ganhar 15 mil reais - 5 mil a mais do que em 2009 -, além dos 10 mil reais destinados à escola. Os cinco melhores trabalhos receberão menção honrosa e uma assinatura anual de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR e o escolhido como Gestor Nota 10 virá a São Paulo em outubro de 2010 para participar da festa de premiação e da Semana Victor Civita de Educação - três dias de formação.

domingo, 20 de junho de 2010

Morre José Saramago (1922 - 2010)

Aos 87 anos, falece o único escritor português a ganhar o prêmio Nobel de Literatura
Romancista, jornalista, dramaturgo e poeta, José Saramago morreu às 12h30 desta sexta-feira, em consequência de falência múltipla dos órgãos. O escritor estava em sua casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias.
Segundo o site oficial da Fundação José Saramago, o autor morreu estando acompanhado pela família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila.Luiz Schwarcz, editor e fundador da Companhia das Letras que publicava os livros de Saramago no Brasil, disse em seu blog como ficou sabendo da morte do amigo.“Acabo de ver o escritor José Saramago morto. Quando a notícia apareceu na internet, liguei pelo skype para Pilar (esposa do escritor), que sem que eu pedisse me mostrou José deitado na cama, morto. Tenho falado com Pilar quase todos os dias. Sabia que não havia chance de recuperação, o destino de José já estava traçado, os médicos não acreditavam mais na possibilidade de um novo milagre, como o do ano passado, quando venceu, contra todas as expectativas, os problemas pulmonares que o acometiam”, relatou Schwarcz. José Saramago, além de ganhar o prêmio Nobel de Literatura (1998), é considerado responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Entre suas maiores conquistas também está o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em Portugal.

A ligação com o Brasil ficava evidente nas frequentes visitas ao país e nas amizades com o escritor Jorge amado, com o fotógrafo Sebastião Salgado, com o músico Caetano Veloso e intelectuais, como Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras.“Saramago era um amigo desde os anos 80. Uma boa e grande amizade que começou em 1981 quando nos conhecemos. Sempre acompanhei o percurso literário dele, mesmo antes de conhecê-lo. Era um escritor excepcional,” disse o historiador muito emocionado.

A admiração por uma das obras do escritor levou o cineasta brasileiro Fernando Meirelles a adaptar “Ensaio sobre a cegueira”, que fala sobre uma epidemia que torna cego os habitantes de uma cidade, para o cinema.O Ministro da Cultura, Juca Ferreira, divulgou nota de pesar pelo falecimento do autor. “O escritor José Saramago mantinha relações privilegiadas com o Brasil. Esteve presente em diversos eventos literários no país e se tornou muito popular antes mesmo de conquistar o Prêmio Nobel.

Em romances como “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, o Brasil faz parte das reflexões do grande escritor.”O autor português sempre teve muita ligação com a história, seja na vida pessoal, como em seus romancas.

A história mundial também sempre teve interesse para Saramago e por causa de fatos históricos, como o fascismo e a censura em Portugal, ele foi morar na ilha que fica no meio do Atlântico. A mudança foi motivada porque o livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) apresentava sua visão ortodoxa sobre o messias cristão e o livro foi proibido no país. Em 1992, o governo não inscreveu o romance no Prêmio Literário Europeu porque considerou ofensivo aos católicos portugueses por comparar o nascimento de Jesus ao de qualquer outro homem. E, assim, o escritor abandonou de vez a sua terra.

Os acontecimentos mais recentes também eram alvo das críticas do autor. E causou muitas polêmicas. Em 2002, Saramago visitou a Cisjordânia e no encontrou com Iasser Arafat comparou a ocupação israelense ao Holocausto de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra.

A última publicação de Saramago foi “Caim” (2009) que é um olhar irônico sobre o Velho Testamento e também foi alvejado pela Igreja. Em sua passagem por Roma, em 2009, o autor chamou o Papa Bento XVI de “cínico” e disse que a “insolência reacionária” do catolicismo precisa ser combatida com a “insolência da inteligência viva”.Além da saudade, o escritor deixa um legado importante para literários, históriadores e fãs de suas obras.

Entre tantas relíquias estão os romances “Terra do Pecado” (1947), “Manual de Pintura e Caligrafia” (1977), ” Levantado do Chão” (1980), “Memorial do Convento” (1982), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984), “A Jangada de Pedra” (1986), “História do Cerco de Lisboa” (1989), “O evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991), “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995), “Todos os Nomes” (1997), “A Caverna” (2000), “O Homem Duplicado” (2002), Ensaio Sobre a Lucidez (2004), “As Intermitências da Morte” (2005) e “A Viagem do Elefante” (2008) e “Caim” (2009).


Revista de História da Biblioteca Nacional
Monique Cardone